Em 2014 comecei um novo projeto com metas pessoais e uma delas era assistir pelo menos um filme por mês no cinema.

Bom, ontem eu assisti O Quarto de Jack (Room, dirigido por Lenny Abrahamson e baseado no livro da Emma Donoghue) e vim aqui contar um pouco sobre o filme já que o trailer não nos ajuda muito a entender o que se passa.

quartodejack-posterO filme começa com Jack, um garotinho que acaba de fazer 5 anos, acordando ao lado de sua mãe, que ele só conhece por Mãe, mas seu nome verdadeiro é Joy. Ela é o tipo de pessoa que faz tudo pelo filho, mantendo-o saudável, alimentado, incentivando-o a fazer exercícios matinais e inclusive escondendo uma realidade cruel: eles estão vivendo em um cativeiro desde que Joy foi sequestrada sete anos atrás.

Logo, então, percebemos que a única realidade que Jack conhece é aquele galpão minúsculo. Tudo que existe em sua concepção de mundo está ali dentro: armário, cama, banheiro, pouca comida e inclusive uma televisão com recepção ruim, o que o leva a crer que plantas, animais e outras pessoas não existem de verdade. A criança nem sabe que existe um “lado de fora” daquele galpão.

E aqui esbarramos numa história conhecida de Platão: a alegoria da caverna. Nela é contada a história de pessoas que sempre viveram acorrentadas numa caverna, de frente para a parede do fundo. Tudo que podiam ver eram as sombras deles mesmos e de seres e objetos que estavam do lado de fora. Portanto, a realidade para as pessoas da caverna se resumia às sombras e nada mais. E qualquer apresentação de uma nova realidade, seria automaticamente rechaçada em primeira instância. É um conceito bizarro que ferra com nossa cabeça, imagina então para Jack quando ele tenta compreender o mundo real no momento em que sua mãe decide acabar com a farsa antes de tentar fugir.

mito da caverna

Aliás, ainda não mencionei a parte ferrada da história. O sequestrador de Joy, cujo nome é desconhecido mas todos os chamam de Velho Nick, faz visitas semanais ao cativeiro para levar mantimentos como comida e remédio. E infelizmente não é só isso. Ele abusa sexualmente da sua vítima em cada uma dessas visitas. Jack, por outro lado, não sabe de nada o que acontece. Para ele, o Velho Nick é um homem mágico que tem acesso a coisas que estão no “espaço” e vem trazer todo domingo o “presente da semana”. Como o filme é visto pelos olhos da criança e ela se esconde no armário em cada uma dessas visitas do Velho Nick, só sabemos o que acontece de verdade porque estamos de fora e já somos crescidos o bastante.

Vou parar por aqui na análise da história e apontar alguns detalhes mais técnicos para poupá-los de todos os spoilers da segunda metade do filme.

Primeiro: vi gente falando que não gostou do uso da câmera durante o filme. Talvez não tenham percebido que os “closes estranhos” em objetos e pessoas durante alguns momentos foram justamente para que nós pudéssemos ver do ponto de vista de Jack, de baixo para cima e às vezes chacoalhando um pouco por ele estar atordoado e/ou envergonhado perante algumas situações.

Segundo: o foco do diretor na admiração do protagonista por coisas que enxergamos como banais. Podemos ver não só quando os olhos do menino estão em foco, mas também quando é mostrada sua vontade de estar em contato com itens que acabaram de entrar no seu mundo.

"Estou no mundo faz 37 horas! Eu já vi panquecas, escadas, passarinhos e centenas de carros. E nuvens, policiais, e médicos..."
“Estou no mundo faz 37 horas! Eu já vi panquecas, escadas, passarinhos e centenas de carros. E nuvens, policiais, e médicos…”

Terceiro: o fechamento (ou a falta dele) na história de alguns personagens. Assim como na vida real, nada se encerra como capítulos em sequência aqui. A vida segue, a gente espera que coisas boas ou ruins aconteçam com aqueles que as merecem. Ou sequer sentimos que esse karma alheio seja importante para nós. O que vale mesmo é seguir em frente e esquecer do resto.

Quarto: não sei se podemos chamar isso de alívio cômico, mas gostei da pergunta que Jack fez para sua mãe sobre a Dora, A Aventureira. Assim como eu gostei do comentário feito por ele sobre o tamanho do quarto no final do filme.

É curioso como nós e nossas perspectivas sobre lugares mudam com o passar com tempo.

Enfim, espero que tenham gostado do texto e espero que gostem do filme. Foi a primeira vez que entrei num cinema pra assistir a um drama e, olha, valeu a pena.

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