Desde quando você e eu começamos a escrever sozinhos e a criar histórias, nossas professoras sempre nos lembravam que para um texto fazer sentido ele deveria ter um começo, um meio e um fim. Não é um tarefa lá muito difícil. E também não precisa seguir a ordem dos acontecimentos, do contrário nem teríamos filmes como Cães de Aluguel, Os Suspeitos ou Amnésia.

reservoir dogs

No entanto, tem uma galera na internet que se esqueceu disso – ou talvez nunca aprendeu mesmo – e sempre posta coisas completamente sem nexo. Eu já reclamava disso no orkut, mas a doença se espalhou pro Facebook e piorou com Twitter assim que as pessoas começaram a usá-lo e interpretaram erroneamente o limite de caracteres como limite de coerência.

Ou vai dizer que você nunca viu um tweet sem pé nem cabeça como esse aí embaixo?

E pra piorar, essa praga agora começou a se espalhar pro YouTube. As pessoas criam um vídeo sobre o nada, falam sobre o nada e concluem com o nada. E a vida segue sem ter mudado – adivinha só? – absolutamente nada. Quando Jerry Seinfeld fez isso, pelo menos ele fez direito.

Seinfeld: um programa sobre o nada.
Seinfeld: um programa sobre o nada.

O vídeo que me fez escrever esse texto foi o de uma senhourita que falava para seus inscritos (incluindo eu) que iria se reunir com a “Fu”, apelido de sua amiga que será chamada aqui de Fulana – mas tenhamos em mente de que nós não sabemos o nome dela. A Fulana existe apenas como Fu e nada mais, afinal a senhorita do vídeo não fez questão alguma de nos contar sobre ela.

Então temos algumas cenas de uma viagem e da “apresentadora” do vídeo falando que está super feliz e empolgada, pá e num sei que lá. Aí o vídeo vira uma espécie de clipe com cenas aleatórias e uma música creative commons* fornecida pelo YouTube, e então termina com umas breves palavras da moça sobre como sua experiência foi legal. E em nenhum momento sua amiga Fulana aparece! Como assim?!

Na minha opinião, um dos grandes problemas de algumas pessoas que conquistaram relevância onde quer que seja, é que elas vêem todos os seus inscritos e seguidores como fãs e stalkers, e por isso têm a impressão que as mesmas pessoas que assistem seus vídeos são as mesmas que as estão seguindo no Twitter, no Facebook, no Snapchat, no MySpace, no Orkut, no Plurk, etc. Infelizmente não é assim, e se o preço a ser pago pela relevância é que você tenha que repetir a mesma informação em cada uma das suas redes sociais, então faça isso, oras.

A palavra de ordem aqui é contexto. Marcelo D2 já falou sobre isso e Tim Minchin também. Talvez seja uma boa seguir essa dica aí.

Pensando bem, pode ser que o buraco seja ainda mais embaixo. Talvez essas pessoas estejam preocupadas com o que elas aparentam ser do que com o que elas pensam de verdade. O culto à imagem e à beleza é muito forte hoje em dia e a tendência é agravar se os próprios youtubers/blogueiros/tuiteiros/etc, relevantes como são, continuarem a colocar suas próprias ideias em segundo plano. A gente sabe como isso influencia as pessoas, especialmente o público infantil e adolescente que consome cada vez mais esse tipo de material. Então cuidado com o que você está fazendo pelamordedeus.

E sabem o que é o mais frustrante disso tudo? É que a mina do vídeo, assim como eu, também faz jornalismo. E quando você faz um curso como esse, o mínimo que você precisa saber é como construir uma ideia.

Coisa simples.

Update (16/11/15): depois de pensar bastante a respeito e ver que seria coerente falar sobre o YouTube no próprio YouTube, gravei o vídeo abaixo. Dei o mínimo de voltas possível e fui direto ao ponto, acrescentando algumas coisas que não citei aqui no texto. Assistam aí. :)

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* Creative Commons é uma licença que permite ou não o criador de conteúdo a usar trabalhos de outras pessoas. Dessa forma, muitos problemas com direitos autorais são evitados na internet.

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