Pois é, o orkut morreu. Enquanto vocês estavam se lamentando no twitter sobre um site que ninguém mais entrava desde 2009, eu estava gravando um podcast sobre o assunto. Inclusive, ouçam! Gravei com o dono do Treta, um dos primeiros blogs que eu acompanhei nessa blogosfera de meodeos e de quebra ele até divulgou o podcast lá no site dele. Vocês aí que não manjam dos blogs underground – então como vieram parar aqui?! – talvez conheçam o outro site do qual ele faz parte: um tal de Não Salvo.

galhos de árvore

Pois bem, voltemos para 2004, o ano em que ocorreu a historinha abaixo.

Eu morava numa cidadezinha do interior do interior do cu do mundo onde Judas perdeu as botas que era no interior de um buraco negro situado no estado de Minas Gerais. Eu estava com 12 anos e cursava a sexta série do Ensino Fundamental (que hoje em dia se chama sexto ano, mas até o final desse post já terão mudado novamente para sexta série).

Nossa professora de física – sim, eu estudava física aos 12 anos – tinha organizado uma excursão para o Museu de Física de Lagoa Santa/MG. Estávamos todos ansiosos pela viagem por motivos de: era uma excursão escolar, porra.

Tínhamos combinado de nos encontrar na porta da escola meia hora antes da partida para evitar qualquer tipo de atraso e outros imprevistos. Quase todo mundo estava lá na porta da escola, exceto um dos meus melhores amigos da época que chamarei aqui de Rallo Tubbs para preservar sua identidade. Todos se perguntavam onde estava o jovem gafanhoto mas nem sinal de vida dele.

Enquanto isso, na rodovia estadual…

Um oferecimento Google Street View e minha memória foda pra caralho.
Um oferecimento Google Street View e minha memória foda pra caralho.

… uma mãe e um filho esperavam no calor infernal das 6 da manhã um ônibus passar. Era Rallo Tubbs e sua mãe Berenice, que também teve o nome preservado. Após a impaciência atingir o nível 9000+, a senhora se volta para o filho e diz:

– Criatura, vá para a sua escola e veja se aquela caralha de ônibus vai sair de lá ou daqui da rodovia. Não é possível, meu Deus. Estamos esperando feito trouxas aqui e ninguém aparece para dar uma satisfação. Mas olha só, independente de onde o ônibus sair, você volta aqui e me conta. Não me faça esperar. Agora vai.

Caros leitores, não sei qual é a idade de vocês mas em 2004 pouquíssimas pessoas tinham um celular à disposição. E vale ressaltar também que meu estimado colega teve que andar por um quilômetro para chegar até a escola. Imagina a bosta que não ia ser se ele e o ônibus se desencontrassem. Mas não foi isso que aconteceu.

Na porta da escola haviam cerca de trinta alunos impacientes quando, de repente, alguém avista Rallo Tubbs. “YAY! Bora viajar!”, todo mundo pensou.

– Calma, gente, eu tenho que voltar lá na estrada pra avisar a minha mãe. – disse o garoto
– Não, cara, que burrice. A gente vai passar lá de ônibus e estamos saindo agora.

Não estávamos.

O ônibus demorou mais uns vinte minutos, que deveriam ter se transformado em horas ou milênios para a dona Berenice.

Finalmente partimos. Estávamos todos naquele clima de putaria e algazarra juvenil que só as melhores excursões são capazes de nos proporcionar (e olha que essa nem foi das melhores).

De repente, o motorista vê uma pessoa na estrada. Era uma senhora de quarenta e tantos anos, levemente acima do peso, muito brava, suando, fazendo sinal para o ônibus parar e com um galho na mão. Repetindo: com um galho na mão. É, caramba, um galho de árvore, nunca viu um? Pois então, era a dona Berenice.

Ao que o motorista abre a porta do ônibus, a mulher avança com toda a fúria que um ser humano pode sentir momentaneamente pelo próprio filho e começa a dar galhadas no garoto enquanto gritava:

– SEU MOLEQUE! EU FALEI PRA VOCÊ VOLTAR AQUI E ESPERAR COMIGO! E VOCÊS TODOS AÍ ATRÁS, PAREM DE RIR DO MEU FILHO SENÃO EU BATO EM VOCÊS TAMBÉM!

Coitado, deve ter sido humilhante pra caralho.

Nossa professora conseguiu conter a mulher, que saiu do ônibus de volta para casa (que não era nem um pouco perto de onde estávamos, muito menos perto da escola), deixando para trás o seu filho, que seria alvo de muita zuera e pilhéria.

Visitamos o museu, fato que eu quase não me lembro. Porém me lembro da nossa professora dançando “You’re Still The One” da Shania Twain com um dos alunos na viagem de volta. Aluno esse que tinha um nome que rimava com seu apelido: Jadeu.

E agora chegamos à parte do texto que justifica seu título.

Cerca de um ano e meio depois eu me mudei de cidade. Com isso, eu precisava manter contato com meus amigos e colegas. Era uma necessidade.

Acontece que meu senso de empatia era zero, como todo adolescente retardado, e lembrando-me da puta história engraçada que havia acontecido no dia da visita ao museu, criei uma comunidade.

"Desenformado" foi um erro legítimo. O resto foi por causa do limite de caracteres.
“Desenformado” foi um erro legítimo. O resto foi por causa do limite de caracteres.

A comunidade bombou pra cacete, como podem perceber. Mas o triste mesmo é que eu nunca mais recebi uma notícia da vítima da história toda. Em parte por ele nunca ter feito uma conta no orkut, em parte por ele ter me achado um escroto que só estava esperando sair de seu alcance para poder zoá-lo, eu suponho.

Vocês podem clicar aí na imagem da comunidade para ampliá-la e tentar identificar alguém. A propósito, uma das comunidades que eu não desfoquei é a de um amigo que visitava esse blog de vez em quando e deixava uns comentários bem legais. Deve ter mais de um ano que eu não recebo notícias desse puto. Manifeste-se, por obséquio.

PS.: aqui vai uma informação muito inútil: o screenshot dessa comunidade foi feito em 17/02/2007.

E é isso.

[Curtam, compartilhem, retuitem, imprimam e colem nas paredes da sua escola ou faculdade.]

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