O ano está acabando. Pra mim essa foi sempre a época de NÃO viajar no Revéillon e também a época de ouvir justificativas de que o presente que eu estava ganhando valia tanto pro Natal quanto pro meu aniversário, mesmo sendo duas datas diferentes. Mas os anos passam e a gente acaba acostumando com esse tipo de coisa, principalmente quando somos adultos trabalhadores e podemos comprar nossos próprios brinquedos.

Meu próximo brinquedinho.
Meu próximo brinquedo.

Só que por pior que essas coisas pareçam, nada será tão ruim quanto à prática do amigo oculto. Ou amigo secreto, dependendo da sua região. Ou amigo surpresa, se é que isso existe. Enfim, aquela brincadeira infeliz onde todo mundo é obrigado a participar, caso contrário você será o babaca do seu círculo social.

Embora eu ache melhor que você não se envolva (e muito menos ME envolva) nessa prática quase criminosa, darei aqui o passo a passo de como fazer o amigo oculto perfeito.

Passo #1: não faça.

Agora sim, podemos prosseguir com o texto.

Camilla Figg

#1 – O amigo oculto tenta criar um ambiente de trabalho (ou escolar) mais agradável. E falha.

Uma verdade universal é que sempre uma dessas pessoas irá sugerir a brincadeira entre o grupo: ou é a líder de turma ou a secretária da firma que tem 5 gatos e não transa há 8 anos. Curiosamente a secretária foi uma excelente líder de turma nos seus tempos de colégio, mas divago. O que essas pessoas não conseguem raciocinar é que um ser humano NUNCA irá se apegar a outro como se fossem amigos de infância, principalmente se eles não estão se dando bem durante os outros 11 meses do ano. É muito constrangedor você sortear uma pessoa a qual você mal sabe o nome e ter que dar o presente mais genérico do mundo a ela por pura obrigação social.

Em alguns casos acaba acontecendo a desistência de uma das partes. Ou de ambas, mostrando assim que apesar de se ignorarem ou se odiarem, essas pessoas têm um nível intelectual (ou no mínimo um senso de ridículo) bastante próximo.

Sem falar que se você sortar seu chefe ou seu professor, a chance de dar merda é ainda maior. Vocês só convivem por obrigação. Um não precisa ser amigo do outro e muito menos dar presentes que não corresponderão às expectativas de ninguém.

#2 – Preços incompatíveis

Escola é uma merda. Não a escola em si, mas a época escolar. Adolescentes com hormônios à flor da pele tentando se mostrar uns melhores que os outros, tentando pagar de super-milionários, quando na verdade o único dinheiro que têm veio dos pais. E se você não tem dinheiro, como vai participar do amigo oculto/secreto/escondido atrás da moita? Simples: é só estipular o valor do presente numa quantia não muito exorbitante. Algo em torno de 10 e 15 reais. O problema é que isso restringe as opções para chocolate ou qualquer coisa genérica de loja de presentinhos. Mas não é só isso! O parágrafo quatro e versículo 18 da Lei de Murphy diz claramente que o valor do presente recebido será pelo menos $1 (um dinheiro) mais barato que o presente dado. E assim tudo tende a piorar…

#3 – Gente que troca o nome depois do sorteio

Como se não bastasse ser uma bricadeira chata de ter que dar um presente aleatório para uma pessoa mais aleatória, ainda tem aqueles que saem perguntando na maciota o nome da pessoa que estava no papelzinho que você tirou no sorteio. A estratégia é encontrar alguém do seu gosto e assim usar de forma mais decente o dinheiro investido gasto. Acontece que até o dia da troca de presentes a turma inteira saberá quem foi que você tirou, e o “oculto” da brincadeira terá perdido completamente o significado.

#4 – A hora de adivinhar quem é o ganhador do presente

Esse é um dos momentos mais bostas do amigo de butuca. Uma rodinha se forma, você vai lá pra meio passar vergonha sozinho e ainda tem que fazer alguma coisa bem idiota pra que as pessoas descubram quem é o seu “amigo”, porque simplesmente dizer o nome não é o bastante. As opções são variadas: você pode fazer uma mímica ou descrever a pessoa exatamente do jeito que ela não é. Eu mal consigo me conter tamanha a diversão.

Eu me lembro de uma vez na quarta-série (hoje se fala é “quarto ano”, certo?) quando a nossa professora havia me tirado. A ideia era descrever a pessoa ao contrário, então ela começou com “ele mora longe” (na época eu morava do lado da escola) e todo mundo já tinha sacado que era eu. Só que aí ela disse que “ele adora futebol”. Aí não teve jeito porque todo mundo sabia que eu mal sei o formato da bola. Isso até hoje, aliás. O estranho é que quando eu abri o presente era UMA BOLA! Até hoje eu tento entender se ela não sabia que eu não gostava de futebol e se esqueceu no meio da brincadeira que tinha que descrever a pessoa ao contrário – nesse caso ela diria que eu odiava futebol – ou se ela simplesmente quis me zoar me dando aquele presente. Eu acredito fortemente na segunda opção, visto que ela foi a primeira professora a claramente não gostar de mim.

#5 – O presente nunca é bom

Depois do item acima vocês estão entendendo meu trauma com amigo que brinca de esconde-esconde né? Pois aqui vai mais um case de desgraça:

Estava eu no primeiro ano (hoje “primeira série” — puta que pariu, hein?) e era novo na escola. A brincadeira em questão era um amigo choco (nome escroto do cacete) feito na Páscoa. Os presentes obviamente eram chocolates. Acabei tirando um cara que tinha o singelo apelido de Piaba. Um cara com um apelido desse vocês já podem imaginar. Inclusive reza a lenda de que ele tenha se cagado durante um aniversário de tão bêbado que estava, rendendo assim seu apelido de Piabão Cagão, que perdurou pelo resto do Ensino Médio. Mas beleza, eu tinha que participar do negócio pra não ser o excluído da turma. Comprei umas barras de chocolate e levei no dia, só que o tal Piaba não apareceu. “Ah, depois eu dou o chocolate então”, pensei.

Só que no fim do dia eu descobri que o imbecil também tinha me tirado no sorteio e resolveu matar aula por causa disso. Depois do feriado de Páscoa ninguém mais lembrava do amigo oculto (tão fracassado quanto qualquer outro) e eu acabei ficando com os chocolates que eu comprei.

Dois anos depois, no fim do ensino médio, eu cometi a imbecilidade de participar novamente. Foi minha última vez. Pra minha sorte acabei ganhando um porta-retrato do meu professor de biologia com uma foto minha e de meus pais que a esposa do dono da escola havia tirado no dia da minha colação de grau. Se dependesse do meu professor eu ganharia só o porta retrato sem nada mesmo. huehuehue

Mas foi legal justamente pela atenção e sensibilidade da mulher ao mandar imprimir as fotos e “agregar valor” ao presente.

Porém o “amigo” que eu tirei foi um dos professores mais babacas que eu já tive. Vamos supor que era meu professor de química só pra ilustrar a situação. Mentira, era meu professor de química mesmo. Ele era aquele cara que se dizia sério e de vez em quando brincava no meio da aula. Só que se você desse risada de qualquer coisa que não fosse as brincadeirinhas idiotas dele, você tinha que lidar com a represália. Enfim, saí pra comprar qualquer merda pra esse cara e acabei comprando uma caneca com alguma coisa escrita nela (algo sobre “stress”, eu acho). Só que na loja apareceu uma colega que tinha saído com meu professor de biologia (o do porta-retrato). Ela acabou comprando uma caneca do mesmo modelo, escrito “Eu sou o chefe” porque além de professor, ele havia se tornado o diretor da escola recentemente. Acontece que a JÊNIA da vendedora fez os dois embrulhos iguais e acabou misturando na hora de nos entregar. Na hora de abrir, o professor de química fez uma cara de WHATAFUCK, eu tomei o presente da mão dele e entreguei o outro.

¯\_(ツ)_/¯

#6 – A modalidade “amigo oculto de gente louca”

Mesmo após todas essas desventuras, ainda tem gente que consegue cagar ainda mais a experiência. Tem umas modalidades onde depois dos presentes serem entregues, alguém pode ir e trocar o presente com você à força. Então por que diabos rola o sorteio se as coisas serão trocadas no fim das contas? E às vezes as coisas acontecem sem o uso da forçação de barra. A pessoa é sorteada, você compra o presente, mas na hora você escolhe qualquer um da pilha de presentes (exceto o seu) e dá pra pessoa…

Eu sinceramente não consigo ver graça nesse tipo de coisa. O que me conforta é que, por não gostar da brincadeira, eu não me tornarei uma secretária futuramente.

PS.: Tive a ideia de escrever esse texto depois de uma conversa com o @LBKatan e com a @pattymeel, mas acabou ficando mais pesado e pessimista do que eu tinha planejado. Aqui ficam minhas desculpas por eu ser um amargurado.

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