Finalmente o filme do Homem-Aranha tinha estreado. Minha rede de amigos não parava de falar desse filme, então, mesmo sem conhecer nada de quadrinhos, aquele hype acabou me atingindo. Eu ainda não havia assistido um único filme decente no cinema durante o ano todo. Vingadores? The Dark Knight Rises? Mercenários 2? MIB 3? Não!… Nada disso ainda existia, afinal o ano era 2002.

Spider Man 2012

Era uma sexta-feira quando ouvi dois colegas na escola combinando a hora em que iriam ao cinema. Mesmo tendo escutado, perguntei novamente a eles não só para ter certeza, mas também como pretexto para me colocar na conversa.

“Oito e meia”, um deles respondeu.

Naquele momento percebi como aquele moleque, que chamaremos aqui de Tiago, era um filho da puta. Ele me disse um horário complemente diferente do que havia combinado com o comparsa dele. Aliás, a palavra “comparsa” sempre me lembra aqueles vilões vaudevileanos que amarram moças indefesas em trilhos de trem enquanto alisam seus bigodes e consertam suas cartolas no alto de suas cabeças. Enfim.

Com aquela mentalidade infantil da época, pensei: “bom, eles não me querem lá, então irei assim mesmo”. Mais tarde, quando meu pai chegou do trabalho, pedi a ele para me levar na sessão do Homem-Aranha que ocorreria naquela noite. Eu temia que meu pai não quisesse me levar por estar muito em cima da hora e que, consequentemente, meu plano fosse água abaixo, mas por obra do destino meu pai aceitou me levar e ficou tudo certo.

Calma! Nem tudo.

spiderman2002

Chegamos na porta do shopping quase uma hora adiantados para o filme, onde eu encontraria os dois caras-de-pau que combinaram o horário errado comigo. Acontece que havia uma aglomeração gigantesca de crianças na porta do lugar que impedia a passagem de qualquer ser humano para dentro do shopping (e também para o cinema). Meu pai estacionou o carro e assim que a gente estava saindo um homem perguntou se estávamos indo assistir ao filme do menino-teia. Naquele instante meu sensor de “vai dar merda” apitou e quando eu respondi que sim, o cara nos disse que os ingressos haviam se esgotado.

“Bando de moleque arrombado do caralho que esgotou os ingressos!”, era o que eu teria dito se meu pai não estivesse lá e se eu já soubesse xingar dessa forma.

Fomos pra casa e tentamos mais uma vez no dia seguinte. Acontece que o dia seguinte era sábado, e adivinha só se tinham ingressos para o filme no sábado? Exatemente: não.

Um tempo depois – imagino ter sido no domingo daquele mesmo fim de semana – pedi minha mãe para que eu fosse por minha conta e risco ao cinema sozinho. Como não queria perder novamente o filme – e meu tempo – resolvi ir em uma sessão que passaria no meio da tarde. Minha mãe deixou e eu caminhei por longos mil e quinhentos metros até o cinema. Jamais tinha andado tamanha distância sozinho, ainda mais numa cidade relativamente grande como Patos de Minas, lugar onde essa história se passou.

Entrei no cinema e finalmente consegui assistir ao filme, mesmo sendo legendado, coisa que eu não gostava muito na época. Pelo menos no fim de tudo isso eu aprendi uma lição: com grandes poderes vem grandes responsabilidades.

UPDATE (23/01/2015): meses atrás voltei a Patos de Minas e descobri de forma decepcionante que transformaram o shopping numa faculdade particular. Uma faculdade com escadas rolantes!

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