Como eu dizia no último texto, fui contratado para trabalhar numa loja de roupas por indicação de um colega da faculdade.

Na última segunda-feira, estava eu fechando a primeira venda do dia quando do nada, sinto uma mão feminina encostando no meu braço e ouço uma voz simpática dizendo “oi, Danilo”. Olho para o lado para ver quem era a pessoa e vejo um rosto conhecido.

Sabe aqueles momentos em que você reconhece uma pessoa mas não sabe de onde? Foi o que aconteceu comigo. Eu sabia que era uma pessoa simpática e minha reação automática foi cumprimentá-la com um “oi” e um beijo no rosto. Enquanto eu fazia esse gesto que durou aproximadamente 3 segundos, meus neurônios trabalhavam na velocidade da luz para que eu lembrasse logo de onde eu conhecia aquela garota.

De repente, senti a mesma sensação que Neil Armstrong teria sentido caso um de seus colegas astronautas tivesse aberto a porta do Apollo 11 apenas por um instante quando já estivessem orbitando o planeta Terra. Fui sugado pelo vácuo que se instaurou dentro do meu próprio estômago ao mesmo tempo em que todo sangue do meu organismo corava minha cara por causa da vergonha. Eu havia acabado de lembrar quem era aquela menina. Ela, senhoras e senhores, era UMA CLIENTE!

Eu não sei se vocês estão cientes do constrangimento que é isso, mas posso dizer que é como se você fosse dar um beijo de boa noite na sua mãe e ela, sem querer, virasse o rosto ao mesmo tempo, dando assim um beijo na sua boca e, por causa disso, você tivesse uma leve ereção. Eu não saberia onde enfiar a cara. Talvez eu saísse de casa naquele instante para nunca mais voltar.

(UPDATE: estou relendo esse trecho novamente e, onde diabos eu estava com a cabeça pra fazer essa analogia com o beijo na mãe? Provavelmente perderei metade dos meus leitores que, segundos as últimas pesquisas, somam um total de 5.)

Porém a situação era outra. Eu estava no início do meu expediente e não poderia simplesmente pedir um intervalo nem nada do tipo. Fui obrigado a fechar aquela venda que eu já estava fazendo, além de atender a menina do beijo com exatamente essa cara:

O que realmente aconteceu foi o seguinte: nós vendedores temos uma lista onde escrevemos nosso nome até que chegue nossa vez de atender o próximo cliente, garantindo assim que todos tenham mais ou menos as mesmas chances de vender. Pense só: o salário do vendedor é a comissão; se não tivéssemos uma lista, todos os vendedores cercariam o cliente, tal como nerds gordos cercam a Apple Store durante os lançamentos dos iPhones. Basicamente é isso: você coloca seu nome na lista e aguarda sua vez. Acontece que se um cliente chega na loja procurando um vendedor específico, você deve dar a vez ao tal vendedor. E foi o que aconteceu, a menina atravessou a loja inteira para ser atendida por mim. O que me causou estranhamento foi que ela se lembrou do meu nome, coisa que não é muito comum, pelo menos lá na loja (de cada 100 clientes para qual você diz seu nome, um realmente se lembrará).

Mas a história não acaba aqui. Eu já estava tão sem jeito por causa do beijo dado na cliente que comecei a fazer o pior atendimento de todos os tempos (e receio que ela nunca mais retorne à loja). Para começar, ela me disse que queria uma nova calça jeans parecida com a que eu havia vendido da primeira vez em que eu a atendi. Depois de muito custo tentando me concentrar no atendimento, fui fechar a venda. Temos três computadores na loja e no momento havia apenas um desocupado. Eu costumo usar apenas um único computador por causa da sua posição geográfica dentro do estabelecimento (de frente para a saída e onde o cliente pode ficar mais perto da máquina de cartão, evitando que ele passe para o lado de dentro do balcão para digitar a senha), mas naquela hora ele estava ocupado. Então entrei no sistema pelo outro computador e passei o leitor de código de barras na calça.

Tipo esse, só que preto.

Parei de fechar a venda para embalar a calça para presente e gastei uns 2 minutos (que pareceram 10) tentando dobrar a calça de maneira que ela entrasse no pacote. Então a cliente me solta um “faz assim ó”. MERMÃO!… Quando o cliente acha que sabe fazer seu trabalho melhor que você, é sinal de que a coisa ali precisa ser mais ágil. Eu comecei a me atrapalhar com a porra daquele embrulho até que finalmente a calça entrou. Quando fui tirar a fita que fica no embrulho e que protege a cola que sela o pacote, vi que não tinha cola. Pra vocês visualizarem melhor, é como se fosse aqueles envelopes de depósito bancário que tem uma fita adesiva, evitando assim que você gaste durex ou qualquer coisa parecida. Já que a merda do embrulho tava sem cola, tive que tirar a calça lá de dentro e repetir o processo em outro pacote. Finalmente deu certo. Mas calma lá que ainda tem merda pra acontecer.

Como a cliente disse que pagaria no débito, pedi o cartão emprestado e passei na máquina que estava ligada ao computador. Ela olha pra máquina, quase apertando a tecla verde depois da senha, e me pergunta:

“Essa calça é 29 reais mesmo?”

Caralhoputaquepariu. Só me faltava essa: o produto com preço errado. Falei que o preço não era aquele e cancelei imediatamente o pagamento. Retornei na tela onde mostra os itens comprados e lá estava: short jeans – R$29,00. Fiquei pensamento que tipo de bruxaria era aquela e o que eu tinha feito de errado pois me lembrava que da primeira vez que eu olhei pra tela tava escrito “calça jeans – R$49,00”. Daí lembrei de olhar o nome do vendedor que sempre fica no alto da tela e percebi que o nome não era o meu, mas sim de uma das vendedoras. De repente, percebi o tamanho da cagada: eu estava fechando a venda de outra pessoa com a cartão da minha cliente. Eu, sendo bastante profissional, fiz o que era o mais certo: culpei o computador da loja. Nem acredito como fui tão idiota a ponto errar de computador. É como minha mãe diz: o uso do cachimbo faz a boca torta.

Voltei pro computador certo, peguei o cartão de novo, passei na máquina, a cliente foi para o lado de dentro do balcão, digitou a senha, saiu do balcão, esperou eu pegar o comprovante e colocar a calça na sacola. Então entreguei a sacola nas mãos dela e já estava direcionando-a para a saída da loja.

“Tudo bem, contagem zero de mortos e feridos. Fim desse atendimento maldito”, pensei.

De repente, ela vira pra mim e fala:

“Você esqueceu de devolver meu cartão.”

Moral da história: nada é tão ruim que não possa piorar.

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