Sempre tive um sentimento estranho pela morte. Nunca foi medo, pois quando ela chegasse eu simplesmente não saberia. Também não era raiva, pois eu não poderia fazer nada a respeito. Então não sei exatamente que sentimento era esse. Até um tempo atrás esse sentimento pela morte só não era maior do que aquele que eu sentia por uma possível amnésia repentina (isso pode soar paranoico mas nunca se sabe).

Desde que meu professor de filosofia começou a ministrar aulas sobre a morte, me tornei um aluno mais atencioso. Aquilo que causava espanto para a maioria, só me fazia ficar mais interessado. Então, um dia ele nos fez perceber uma coisa que estava na nossa cara o tempo inteiro: planejamos nossa vida a longo prazo porque somos incapazes de admitir que a morte pode estar mais perto do que se imagina, e se fossemos imortais, provavelmente nunca realizaríamos nada de grandioso em nossas vidas porque sempre deixaríamos tudo pra depois. Como se não fosse o bastante, ele ainda complementou dizendo que um de nós presentes na sala – e ele se incluiu na contagem – talvez não estivesse vivo ao final do dia. Me mantive calado até o final da aula pensando em tudo aquilo enquanto anotava num caderno todas as coisas que eu ainda quero fazer antes de bater as botas.

É difícil aceitar, mas pessoas jovens também morrem. Imagino que a mídia tenha uma forte contribuição para essa viseira colocada nas pessoas, afinal os noticiários mostram apenas casos muito particulares que, na minha opinião, geram pensamentos conformistas como “ah, mas isso está muito fora da minha realidade”. Mas que realidade é essa? Como definir quem é jovem e quem não é quando não se sabe o dia em que cada um irá morrer? Nessa semana completo 244 meses de vida e não sei se viverei um 245º, e apesar de já ter feito algumas coisas importantes que não vêm ao caso (e que eu não consigo me lembrar no momento, mas eu sei que eu devo ter feito), às vezes eu me sinto assim:

E hoje me encontro pensando nas coisas que eu ainda quero fazer e nas pessoas com as quais eu quero estar. Ainda tenho que tirar minha carteira de motorista; aprender a cozinhar direito; aprender a tocar bateria, guitarra e piano/teclado; entrar numa academia e acabar com meu sedentarismo; pular de paraquedas; tirar licença de pilotagem de helicóptero; visitar Stonehenge; visitar e até morar por algum tempo no Canadá; viajar a dois; levar meus pais pra viajar; terminar meu curso de inglês; começar um curso de japonês; aprender a dançar para acabar com momentos constrangedores; realizar trabalhos voluntários a longo prazo (realizei alguns mas foram casos isolados); riscar todos os itens das minhas listas de livros, filmes e séries; e ler todos os meus feeds que estão nos favoritos e que eu nunca paro pra ler.

Claro que essa lista é um breve resumo mas, se a memória não falha, essas são as prioridades e eu estou obstinado a realizar tudo isso no menor espaço de tempo possível. Existem itens um pouco complicados e outros um tanto quanto sem importância mas essa é a MINHA lista. Comece a escrever a sua, passe tudo que está na sua cabeça para o papel e veja como as coisas se tornam mais palpáveis. Não precisa mostrar pra ninguém, mas lembre-se constantemente de se focar nela, afinal a vida é sua e ninguém mais pode te ajudar com isso.

Se vocês não fossem os leitores bonitos e inteligentes que são, diriam coisas como a que eu ouvi na faculdade: “mas se a gente fizer uma lista de desejos e terminar ela rápido, nossa vida ficará sem sentido depois”. Caramba, mas que diabos de pensamento é esse? Pra começo de conversa, a vida não precisa fazer sentido (e, de fato, nunca faz). Não taxe os seus desejos como “impossíveis” ou “insignificantes”, apenas vá e faça. Se a lista for pequena o suficiente pra acabar antes de você atingir a terceira idade, faça uma lista nova. Sonhos são cumulativos. E pra término de conversa, você vai morrer, então é melhor você começar a se mexer mais ao invés de continuar simplesmente existindo.

Leitura complementar:
“Para uma vida plena, lembre-se da morte” do site Papo de Homem

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