Dezoito anos é uma idade que pesa na vida de um indivíduo. Digo isso porque esperei um bom tempo para atingir a maioridade. NÃO, ANIMAL! NÃO ESPEREI DURANTE DEZOITO ANOS. OU VOCÊ ACHA QUE NO MOMENTO EM QUE FUI CONCEBIDO, EU JÁ ESPERAVA TER IDADE PRA TIRAR CARTEIRA DE MOTORISTA E ARRUMAR UM EMPREGO?

Voltando ao assunto, hoje foi o dia em que fui dispensado do tão temido TG. Acho que desde que eu tinha uns doze anos ouvia histórias sobre o Tiro de Guerra, pegar guarda, ir no mato caçar uma galinha que o sargento soltava lá como treinamento de sobrevivência, etc. Posso afirmar com certeza que mais de 90% dos homens da minha família que se alistaram, acabaram realmente fazendo essa parada. Os últimos familiares que fizeram, meus primos, disseram que o TG só é bom mesmo quando acaba, pois aí sim tem-se histórias para contar.

O que eu vou tentar fazer por vocês aqui, é algo que ninguém fez por mim. Como bom internauta que sou, fiz uma boa pesquisa no Google sobre o Tiro de Guerra, procedimentos ao alistar, dicas para evitar a todo custo essa experiência maldita e todo tipo de coisa que um sujeito pode imaginar. O único resultado, digamos, satisfatório foi esse post aqui. Então, antes que eu escreva mais uns cinco parágrafos irrelevantes, aqui vão meus relatos. Não se esqueça de que tudo isso, infelizmente, é a pura verdade.

Se você tem entre 14 e 17 anos, provavelmente está no Ensino Médio, o que significa que pela sua faixa etária você tomou no máximo uma bomba. Sendo assim, você ainda tem potencial para passar no vestibular. Minha dica é: estude, seu safado! Um dos motivos que fazem um jovem ser dispensado do TG (mesmo que demore uma vida) é estar numa faculdade. Nem precisa ser federal, desde que seja impossível você fazer o trajeto casa-TG-casa-faculdade em 24 horas. E é aí que entra a segunda parte.

Se falta menos de um ano pra você se alistar, aconselho que você se aliste no Cafundó do Judas ou então arrume um comprovante de residência de uma área rural. Um cara que se alistou junto comigo, por exemplo, foi tão sortudo que o irmão dele mora no Mato Grosso e arrumou uma conta de luz pra ele. Caso vocês não saibam, moramos em Minas Gerais.

Em casa, muitas artemanhas podem ser feitas, mas nada garante que elas irão dar certo. Tem gente que fala que pintar a unha do pé ou usar uma calcinha faz você ser dispensado pois reza a lenda que o Exército é homofóbico. Fingir-se de gay também pode dar certo, mas se você for fazer isso, é preciso estudar cada aspecto do comportamento homossexual primeiro (gesticulação, gírias e jeito de andar). Muita gente também diz que ficar um bom tempo sem escovar os dentes ajuda, pois o Exército rejeita pessoas com cárie. Sei não… já ouviram a expressão “cavalo dado não se olha os dentes”? Pois é.

No dia da primeira apresentação, você provavelmente terá de comparecer entre 6h e 7h da manhã. Depois de entrar, você fica no pátio aproveitando o calor e a luz do sol até ficar bem incomodado, aí sim você entra na sala principal. Lá dentro, fica todo mundo te olhando torto (o sargento, os atiradores que já estão lá há um ano e até mesmo os babacas que se alistaram junto com você). Daí, começa uma prova doida que mistura teste de Q.I. com exame psicotécnico. Eles dizem que vão marcar cinco minutos no relógio pra prova toda ser feita, mas acho que só se passaram 2 minutos quando eu fiz a minha. Não se preocupe em fazer bem feito, é sério! Dei graças a Deus que eu não dei conta de acabar a minha. Quanto mais imperfeita for sua prova, melhor. A não ser que você queira servir ao Exército. Nesse caso, por que você está lendo esse texto? Depois desse teste, te chamam pra tirar as medidas do seu pênis corpo, já adiantando o expediente do alfaiate caso você sirva. Logo depois, pequenos grupos são chamados para fazer o exame médico. Acredite, não há nada mais desconfortante do que fazer QUALQUER exame médico com nove caras do seu lado. Primeiro, o médico-militar manda todos ficarem de cueca, assim, sem choro nem vela. Nessa hora, só vale uma única regra: olhe para o teto. Haja o que ouver, olhe para o teto. Assim, começa a bateria de testes: abaixar a cueca até o joelho (alguns desesperados abaixam até o pé. Sei porque me contaram, afinal eu tava olhando pro teto), assoprar as costas do punho, subir a cueca, vestir a roupa, fazer o exame de vista, sair da sala, suspirar aliviado.

No dia do meu exame médico tinha um sujeito franzino que demonstrava sem vergonha nenhuma que queria ser dispensado de qualquer jeito. Acompanhe o diálogo entre ele e o médico:

Médico: Venha fazer o exame de vista. Fique de frente pro quadro. Tampe o olho esquerdo e comece a ler.
Sujeito: Se eu tampar o olho esquerdo eu não consigo enxergar nada.
Médico: Mas esses óculos que você está usando não te ajudam?
Sujeito: Um pouco.
Médico: Você tem o que?
Sujeito: Ãh?
Médico: Que problema você tem? Astigmatismo ou miopia?
Sujeito: Aham. (acenou positivamente com a cabeça)
Médico: Não sabe não?
Sujeito: É miopia.
Médico: E você tem a receita do óculos?
Sujeito: Tenho, mas tá lá em casa.
Médico: Tem como você ir lá pegar?
Sujeito: Ih… eu moro longe.
Médico: Você pode voltar aqui amanhã.
Sujeito: Ih… mas eu tenho que procurar porque não sei onde ela tá.
Médico: Tá. Mas você tem mais algum problema?
Sujeito: Tenho alergia.
Médico: Alergia à quê?
Sujeito: Cachorro, sabonete, detergente, poeira, mofo… Na verdade, se eu ficar muito tempo nessa sala, eu posso até ficar com asma.

E assim foi…

No dia da segunda e talvez da terceira apresentação, você somente terá de levar toda a documentação possível que ainda estiver faltando: aprovação na faculdade, documento de sua matrícula, comprovante da residência pra qual você irá (supostamente ou não) e até um pedido de dispensa assinado pelo Presidente da República se você conseguir tal façanha.

No quarto dia, que foi meu caso hoje, você só vai precisar acordar cedo (assim como em todas as vezes!), dar um bom dia pro Sargento, torcer pelo excesso de contingente ou pelo seu poder de persuasão mediante o Exército, pegar aquela ficha que tem a sua foto 3×4 horroroza que eu esqueci de mencionar no início do texto, leva-la à Junta Militar, carimbar e ir sorrindo até a orelha para casa com a sensação de missão cumprida.

Mas aí vem uma dúvida: “Como seria minha vida se eu tivesse servido ao Exército?”.

Eu respondo: “Igual, porém com uma ou duas histórias a mais”.

Anúncios